quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Punks comentendo assassinatos?

Punks comentendo assassinatos?
Algo errado nisso.

Eduardo Mesquita - Inimigo do Rei



SomTrês.
Quem é contemporâneo meu certamente vai se lembrar dessa revista. Ela começou como uma revista técnica, falando de alto-falantes e relês e coisas elétricas (porque na época a eletrônica ainda era muito pouca), mas "digi-evoluiu" para uma revista que falava de música e que percebeu o rock como um grande filão. Na sequência de seus esforços para ser a revista de rock do país (na época não havia outra revista com esse tema) a SomTrês começou a encartar pôsters de bandas em suas edições. Quem for ao banheiro masculino do Bar do Kuka vai ver um poster do Iron Maiden e um do Ozzy, todos retirados da citada revista. E logo depois a revista teve uma outra sacada mercadológica bem inteligente: revista-pôster. Tratava-se de um pôster que tinha uma pseudo-revista nas costas, do lado contrário ao pôster, mas que interessava muito pouco realmente porque o que chamava a atenção era o pôster (que normalmente era também a capa da revistinha - quando dobrada).


Foi assim que tive meu primeiro contato com o punk e o punk rock. A revista se chamava "Dicionário do Rock" e vinha com um monte de definições dos estilos diferentes de rock que existiam no mundo até aquele momento, e eu era um pré-adolescente que já ouvia Beatles e Kiss, tinha uma ansiedade muito alta e algumas leituras diferentes da molecada da minha idade. Fiquei atraído pela curiosidade de conhecer os diferentes estilos de rock mas o que realmente me impactou foi o pôster: Sex Pistols. Era uma foto da banda editada com uma gilette cortando a foto de um canto ao outro, com o sangue escorrendo e Rotten com seu blazer rockabilly.


McLaren era um filhadaputa esperto realmente porque o que me chamou a atenção, de início, foi aquele visual de coisa destruída, agressiva, rasgada e eu nem tinha idéia do que era aquilo realmente. Obviamente que comecei a procurar informação, e em épocas pré-web procurar informação era um troço bem complicado, situação que obviamente não desanimaria um sujeito de pouca idade e muito tempo livre.
Depois da SomTrês eu me pus a procurar entender o que era aquilo, que história era aquela de usar roupa rasgada e posar com cara alegre. Eu estava acostumado aos terninhos de Liverpool ou às máscaras e roupas de super-herói do Kiss, então para mim aquela nova e agressiva forma despojada que eu via no pôster era muito mais próxima e "minha" do que tudo que eu havia visto até aquele momento.


Peguei meu salário (comecei a trabalhar com 14 anos, dureza, né?) e comprei o "Never mind the bollocks..." e fiquei enlouquecido com aquele som de guitarras sujas e músicas curtas e sem solos virtuosos. "Do It Yourself", Anarquia e literatura libertária completaram o fascínio por uma filosofia, uma atitude, uma idéia que ia além da música e da postura, mas que era também uma forma de ver o mundo, de buscar igualdade, de acreditar em uma maneira de viver que fosse melhor para todos e não somente para alguns. Sendo eu um guri da saudosa periferia da Vila Bandeirantes, tinha meus ressentimentos com os playboys do Bueno e do Marista, e a ideologia punk me mostrou que eu não precisava ter ódio de quem tinha muita grana, mas que simplesmente eu podia buscar conscientizar as pessoas do mundo inteiro para uma distribuição racional de conforto e vida sáudavel. Me considerava um punk nessa época. Eu era punk.


Nunca arrepiei um moicano nem pintei meu cabelo de verde porque minha mãe era extremamente jogo-duro e eu não era tão maluco assim, mas silkava minhas camisetas do colégio (sempre tomando altas broncas de coordenadores e diretores), andava pelas noites com meu jeans roto e dançava meu pogo nervozzo ao som de Pistols e Kennedys (o meu encontro com o disco branco foi outro evento marcante da minha vida).
E um dia num aniversário inesquecível meu primo Humberto me presenteou com o "Pela Paz em Todo Mundo" do Cólera, e eu descobri que havia tudo aquilo que eu admirava bem mais perto de mim do que eu imaginava. Existia uma banda que falava em paz tocando música agressiva, existia um grupo que articulava ações positivas e que discutia política de forma séria, e eu queria muito viver tudo isso.


Foi nessa época que participei da organização do Primeiro Encontro Anarco-Punk do Centro Oeste. Um fiasco completo, sintoma da total incompetência e inexperiência dos três envolvidos, mas que ao invés de nos desanimar somente aumentou nossa revolta com o sistema que não colaborava, que dificultava a vinda de nossos contatos de outras cidades, que olhava torto para o moicano de meu colega e que incentivava a polícia a tomar a gandola do outro.


Canalizar minha agressão. Isso foi o que de melhor o movimento punk e o punk rock puderam fazer por mim, e ao invés de continuar destruindo vitrines e orelhões pelo centro da cidade (o que agora nos envergonhava muito), a situação era de procurar formas inteligentes e articuladas de combater o sistema e mudar tudo que estava acontecendo. A morte de um dos três amalucados esfriou bastante nosso ânimo, e depois disso o outro mudou-se para longe. Já sabíamos canalizar nossa agressão, nossa rebeldia, nossa revolta.


E eu já tinha aprendido com o movimento punk aquilo tudo que iria moldar minha vida. Seres humanos são iguais entre si, merecem respeito, nada justifica a violência contra outra pessoa, nada justifica a opressão, a humilhação e a destruição do amor-próprio do outro. E outra coisa muito importante: agressividade não é violência. Revolta não precisa ser violenta.


Hoje quando vejo as discussões orkutianas me pego em dúvidas se eu realmente era punk de acordo com as cartilhas modernas que os garotos parecem acreditar. Cartilhas que apresentam todos os passos e atitudes certas e obrigatórias para poder ser chamado de punk. Eu não tinha cartilha para ser punk, aprendi na marra, e sempre achei que isso fosse outro ponto forte do movimento: o desrespeito por regras que não me diziam respeito.


Cresci, envelheci e por incrível que pareça, não sucumbi ao meu medo de ser um sujeito velho e careta. Envelheci, como disse, mas não perdi os ideais que um dia alimentei ouvindo um disco da capa amarela. Chorando de raiva de "tudo que estava ali" e alimentando planos de mudar o mundo, eu temia envelhecer e perder aquele ódio/ternura. Envelheci, me tornei empresário e dentro da minha empresa busco viver ideais de auto-gestão e respeito ao espaço, liberdade e individualidade do outro; sem explorar nem humilhar. Envelheci, constituí família e descobri que posso ainda acreditar num mundo melhor para meus filhos, meus dois tubarõezinhos que estão chegando e que merecem viver num mundo sem violência, sem rapinagem, sem homem-lobo-do-homem.

Não me chamo mais punk, mas continuo pensando punkmente. Meu coração ainda bate no ritmo do "tum-tá" do Pierre.


Sou parte de uma banda que toca punk rock, e posso expor minha agressividade no palco, pregando o que pratico e o que acredito, buscando levar minhas idéias (e de meus colegas de banda, também pensantes semelhantes) para mais pessoas, quantas possíveis.
Por isso não me preocupo quando vejo notícias que dizem que punks estão matando pessoas. Sim, existem pessoas que se acreditam punks fazendo isso, e isso é inegável. Essas pessoas usam a roupa que acreditam ser a roupa de um punk, ouvem as músicas que acreditam ser músicas que um punk devem ouvir, e - pasmem! - fazem o que acham que um punk deve fazer. Pessoas que desvirtuam idéias existem em todos os grupos humanos possíveis. Ou alguém acha que as idéias de Canhoto e Robertinho ou do Trio Parada Dura incentivam algumas bobagens machistas e preconceituosas cometidas por agroboys do meu estado? Ou alguém acha que os Gracie incentivam o que os pitboys fazem nas capitais do sudeste?


Não devemos nos preocupar com o rótulo, porque a verdadeira atitude punk, na minha concepção, não seria querer defender o nosso grupo ideológico, mas defender a vida. Punks acreditam no ser humano e essa deve ser nossa principal preocupação e não apenas se um sujeito usando nossas cores e rótulos cometeu algum assassinato.


Assassinatos são cometidos e essa deveria ser a nossa principal preocupação. Aonde estão os movimentos organizados para conscientizar a população de que a criminalidade é um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente algumas frases soltas em um editorial pelo mundo possa fazer parecer? Aonde estão nossos grupos libertários buscando realizar atividades voluntárias que causem mudanças efetivas na sociedade?


Seres Humanos que se dizem punks cometeram assassinatos. Existem equívocos nessa frase. Sim, cometeram assassinatos. Mas não são punks. Mais ainda, não são seres humanos.

Há braços!

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Um comentário:

Ígor Luz disse...

Társis, e eu imaginando que espécie de pseudo-revoltado-jornalista-devogado era você que não sabia escrever...

Bem, caro amigo. Enganou-me.

=]